TERRA PROMETIDA

Corta-me o coração toda vez que eu leio, ou vejo, reportagem sobre reintegração de propriedade com despejo dos ocupantes da área, por ser um ato profundamente doloroso até para os policiais que executam ordens da Justiça, e muito mais para as famílias despejadas. No Bairro do Jurunas há uma ameaça adiada, graças a Deus, por perda de prazo, de despejo de quatro mil pessoas da área conhecida por Terra Prometida. A Prefeitura Municipal de Belém é a autora da ação de reintegração de posse e reivindica o terreno para construir um conjunto habitacional.
Por esses dias, enquanto eu jantava num restaurante, o garçom chegou mais perto de mim para dizer que me conhecia desde menino. Ele tinha dez anos quando eu fui ao Bairro do Jurunas desapropriar a área conhecida como Radional. Nunca mais, segundo o garçom, ele se esqueceu da festa que foi aquele dia. Eu respondi que também não me esqueci. A área pertencia à Polícia Militar e estava ocupada havia muito tempo por muitas famílias pobres, paupérrimas. Eu negociei outra área para a PM, que concordou imediatamente em razão daquela realidade social. Se a festa foi inesquecível para mim, eu imagino o que significou para as pessoas que viviam em constante vigília, temerosas de ser expulsas de suas casas. Eu e o garçom quase fomos às lágrimas, envolvidos nas lembranças daquele dia.
Desde a minha primeira desapropriação, que foi na área conhecida como Ferro Costa, denominada depois de Jaderlândia, num gesto espontâneo da comunidade, eu me comprometi a fazer um governo diferente e nunca esbulhei terreno de ninguém. Paguei todas as desapropriações, mas jamais despejei qualquer família da sua casa. Isso desde o começo do meu primeiro governo, em 1983. Na Jaderlândia, também vivenciei outro fato parecido com o do garçom. Num domingo pela manhã, eu e Elcione fomos visitar a área que estava recebendo infraestrutura do governo e lá encontramos uma mulher sozinha trabalhando na construção da sua casa. Ela logo me informou que não estava sozinha, pois trabalhava na Casa Vitória Régia, na Presidente Vargas, e seu patrão havia lhe dado todo o material de construção e, durante a semana, os homens da comunidade fizeram a estrutura da casa e, como era seu dia de folga, ela estava ali a pregar portas e janelas. Também desapropriei o terreno e cedi os lotes à comunidade da área da Jaderlândia no município de Castanhal. A maior desapropriação e cessão dos terrenos para a comunidade pobre foi feita na área do PAAR, que homenageia os estados do Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. A área pertencia à Cohab, mas eu intervi e fiz o que fazia em todas as outras desapropriações: cedi a área ao povo e dei total infraestrutura ao novo bairro. Atendi a mais de 50 mil pessoas com títulos de propriedades, não só em Belém, mas em todo o Pará.
Independente de qualquer diferença partidária ou ideológica com o prefeito atual, eu lhe faço um apelo: retire a ação de despejo. Dê a área para a população pobre, pois esses conflitos sempre aparecem em razão da pobreza e da desigualdade. Posso lhe garantir, por experiência própria, que o senhor jamais esquecerá esse ato, assim como todas as pessoas, inclusive as crianças beneficiadas. Mais tarde, quando em um restaurante qualquer, um garçom lhe chegar com lágrimas nos olhos, o senhor entenderá o que eu escrevo hoje.
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