SAÚDE É CASO DE POLÍCIA

A Polícia Civil do Distrito Federal está investigando a morte de um menino de 13 anos, filho do presidente da Empresa Brasileira de Turismo – Embratur, a pedido do procurador da República, Nicolao Dino.  A criança tinha 13 anos, sofreu uma crise de asma na escola, foi levada a um dos melhores hospitais de Brasília e veio a óbito em menos de 24 horas. Não se sabe se houve erro médico, negligência ou qualquer um desses fatores tão banais que fazem parte do cotidiano do péssimo serviço de saúde do país.

A propósito, enquanto essa tragédia acontecia, a presidente Dilma dizia em reunião que a prioridade é a eficiência da gestão, principalmente nas áreas da saúde e da educação, e que defende o desaparelhamento do Estado.  A dicotomia entre o discurso e a prática é gritante: o governo anunciou essa semana cortes nos orçamentos da Saúde e da Educação.

Não existem grandes diferenças entre o hospital público e o privado. Todos estão equiparados ao nível do descaso. Os pobres não têm para onde correr. Os prontos-socorros de Belém são locais perigosos até para os que lá trabalham. Nos outros hospitais públicos a coisa não é tão diferente. Acuada, a classe média quer segurança e reserva boa parte de seu salário para pagar um plano de saúde para a família.  Na realidade, os hospitais e os tratamentos de saúde neste País, além de serem caso de polícia, agora são perigosos. O cidadão tem medo de ir ao médico, de procurar um hospital, porque ele teme ser pior o remédio do que a doença, ou ainda, de se deparar com a negligência, a desumanidade que assola o País. A saúde está privatizada, só falta o governo assumir. Quando um setor é público, quando o governo toma conta, o cidadão tem mais opções de reclamar, de cobrar, de não eleger, de gritar por seus direitos. Quando o setor é privado, a coisa muda completamente de figura. O cidadão tem que apelar para a justiça, para os juizados, para os órgãos de defesa do consumidor. A demora é muito maior, e a responsabilidade social muitas vezes nem existe. O cidadão fica à mercê da sorte, ou seja, o brasileiro tem que adoecer na hora certa, procurar o hospital certo e rezar para ser bem atendido. Tudo isso num país que vai sediar a próxima Copa do Mundo de Futebol e que precisa estar com tudo em ordem para receber pessoas do mundo inteiro.

Há duas semanas, também em Brasília, o secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, em processo de infarto, deixou de ser atendido em dois hospitais que não aceitaram seu seguro saúde. Morreu de infarto agudo no terceiro hospital. O funcionário não teve nem atendimento de emergência. Então, não se trata apenas do SUS, do atendimento aos pobres que sempre estão no fim da fila. Trata-se de todos, do pobre, do médio e do rico. Não basta ter dinheiro, nem conhecimento. A praga da negligência, do pouco caso com a vida humana está alastrada até nos melhores hospitais das maiores capitais brasileiras. Por tabela, dá para imaginar, por exemplo, como estão sendo tratados os brasileiros que vivem nos interiores, nos locais de difícil acesso, onde não há dinheiro, nem equipamento, nem conhecimento, muito menos meio rápido de transporte para os grandes centros.

A saúde do Brasil não está bem. A impressão que eu tenho é de que voltamos ao tempo dos curandeiros. Não é possível que estejamos passando por tanta aflição, justamente quando a era do conhecimento, da ciência avança em larga escala no mundo. É lamentável a morte dessa criança de 13 anos que entrou com asma num hospital privado da capital federal e morreu em circunstâncias estranhas. A família diz que teria havido demora no atendimento e na administração dos remédios. O governo precisa fazer um diagnóstico do setor, levantar todos os casos de abandono, de sujeira, da falta de qualificação, dos baixos salários e das condições estressantes dos profissionais. Quem neste país não passou pelas mãos de um agente estressado, aborrecido com o volume de pessoas na emergência, com as horas trabalhadas após o expediente, com a falta de remédios etc? É uma situação caótica, deficiente. O tratamento deve vir rápido, sob pena de a deficiência se tornar uma doença crônica na saúde.

O governo brasileiro precisa sair dessa fase das boas intenções. Precisa mesmo desaparelhar o Estado, livrar a nação da incompetência. Livrar os setores essenciais, como saúde, educação, segurança e infraestrutura, das mãos de despreparados que não têm noção do quanto este país precisa evoluir.

Jader Barbalho
*Texto originalmente publicado no Jornal Diário do Pará no dia 19 de Fevereiro de 2012.

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Um comentário em “SAÚDE É CASO DE POLÍCIA

  1. Excelente e pertinente artigo. Parabéns Senador, a saúde, em nosso País está realmente na UTI. Precisamos urgentemente de uma boa fórmula para pararmos de morrer nas filas desse péssimo atendimento.

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