O RETRATO DA INSENSIBILIDADE

A peregrinação e a dor de uma mulher em trabalho de parto de uma gravidez de risco, que deixou de ser atendida num hospital público de Belém chamado Santa Casa de Misericórdia, são a mais perfeita reprodução do quadro de horror social em que vivemos. A gestante foi mandada embora pelo porteiro, o vigia do hospital, antes mesmo que pudesse atravessar os portões. Ao chegar a outro hospital, também público, a pobre mulher tem a mesma resposta e, então, numa última esperança, recorre ao Corpo de Bombeiros, pois a sua situação era de emergência. O carro dos bombeiros volta à Santa Casa e, sem encontrar misericórdia, a mulher tem o primeiro filho. O soldado-bombeiro dá voz de prisão a uma médica para que a situação seja resolvida. A gestante perde as duas crianças que, segundo a perícia, já estavam mortas havia 48 horas pelo menos. Esta história colocou o Pará e o Brasil – a sétima economia mundial – nos noticiários internacionais.

O que me preocupa nessa horrível tragédia é a insensibilidade para com os mais pobres e as contradições da nossa sociedade que realiza a maior procissão cristã do mundo e que, quando é exigida sua prática de humanidade, de solidariedade e de fraternidade, age de forma tão diferente. Como pôde ter sido negado socorro a uma mulher gestante? Como ela pôde ter sido mandada embora com a frase “aqui não há vagas”, como se estivesse numa oficina mecânica ou num canteiro de obras de algum prédio?

Fui eu, como governador e como ministro da Previdência, que instalei a primeira UTI neo-natal e salvei a Santa Casa de Misericórdia de um quadro de falência. Reformei totalmente a Santa Casa do Pará. Eu comecei e construí grande parte do Hospital de Clínicas. A mesma coisa fiz com o Hospital Ophir Loyola. Quando fui ministro da previdência consegui os recursos para a construção do Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza que foi totalmente equipado no meu governo. Construí o Hospital Aberlado Santos, em Icoaraci, porque sempre estive muito preocupado com a saúde pública. Também criei a Central de Leitos, há mais de 20 anos, para evitar a peregrinação. Hoje, em plena era da tecnologia, na qual tudo é possível na comunicação humana, a Central de Leitos não funciona, não está conectada, não está nas telas dos computadores dos hospitais, e novamente quem tem que procurar um leito – de hospital em hospital – é a nossa pobre gente, de ônibus, de táxi, ou num carro do Corpo de Bombeiros.

Não é possível que hospitais-referências como é o caso da Santa Casa de Misericórdia, do Hospital de Clínicas, do Ophir Loyola ou do Hospital Metropolitano permitam que porteiros ou vigias sejam os responsáveis pela triagem dos pacientes. Esses hospitais já deveriam ter salas de atendimento e de recepção, como existe em qualquer hospital particular. Além disso, é muito importante a presença, durante 24 horas, de assistentes sociais nos hospitais públicos que atendem à maioria da população pobre. As assistentes sociais são indispensáveis e qualificadas para dar uma palavra, um encaminhamento, dizer se é urgente, ou mostrar o procedimento que deve ser seguido quando não houver vagas. Se a Central de Leitos funcionar como se espera, pode ser verificada na hora, em qualquer hospital, seja público ou da rede credenciada, a disponibilidade de leito, e o bloqueio é feito para garantir a reserva ao paciente. O que aconteceu no triste episódio da gestante foi uma sucessão de descaso e incompetência, aliada à falta de sensibilidade, numa instituição que já foi palco de muita tragédia, no governo anterior, como a morte de um número considerável de recém-nascidos e que, portanto, já deveria ter implantado um novo sistema de melhoria no atendimento.

O choque provocado por essa situação na qual uma gestante pede socorro e não é atendida deve servir de reflexão ao poder público e à sociedade para que o homem não permita que a insensibilidade se espalhe por todo lado e, finalmente, volte a entender que a vida do seu filho tem o mesmo valor que a vida do filho do seu próximo.

JADER BARBALHO
*Texto originalmente publicado no jornal Diário do Pará no dia 28 de Agosto de 2011.

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Um comentário em “O RETRATO DA INSENSIBILIDADE

  1. E as entidades representantes dos médicos, aqui no RS, dizem que não faltam médicos. Que falta salário. E por esta razão são contra novas faculdades de medicina. Falta é vontade para atender os pobres: aqueles que não podem pagar. Falta é vontade para entender que quem ganha salário mínimo não pode pagar R$ 200,00 por uma consulta e que, mesmo assim, não merece morrer em um fila ou perder seus filhos como no caso citado. É preciso responsabilizar médicos e gestores por casos como este de forma exemplar para que o Brasil comece a olhar a saúde do ponto de vista de quem está sofrendo e não apenas daqueles que ficam ricos às custas da dor alheia.
    Lino Moura
    Eng. Agrônomo

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